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Sábado, 3 de junho de 2000

Imagens de Brassai aprisionam a noite parisiense
A primeira retrospectiva em território francês do artista húngaro, autor de livro sobre Picasso que chega agora ao País, reúne cerca de 450 trabalhos e fica em cartaz, até o dia 26, no Beaubourg
Estate Brassa/Divulgação
'Auto-Retrato' feito oito anos depois que se instalou em Paris
SHEILA LEIRNER
Especial

PARIS - Escultor, desenhista, escritor e sobretudo fotógrafo, Gilberte Brassai foi o autor de uma obra hoje inscrita na nossa lembrança como testemunho de um mundo desaparecido: aquele dos apaches e das "belas da noite" parisienses que povoam também o universo dos filmes de Prévert e de Carné. O Centro Georges Pompidou, o Beaubourg, lhe consagra até o dia 26 a primeira grande exposição retrospectiva jamais apresentada na França. São 450 trabalhos que cobrem quase a totalidade da carreira na qual Gyula Halàsz, artista húngaro (de Brasso, na Transilvânia), sempre tentou ultrapassar os limites da fotografia.

Só a vida de Brassai já daria uma obra literária em si. Ele - que desde a mais tenra infância mergulhava graças ao pai na atmosfera das letras e, ainda na juventude, freqüentava em Berlim os célebres círculos de Moholy-Nagy a Kandinski, de Kokoschka a Varèse -, em sua chegada definitiva a Paris, em 1924, ligou-se profundamente ao mais importante grupo de poetas e escritores da época. Com Henri Michaux, Queneau, Fargue, Desnos, Prévert, Reverdy, Brassai partilhou o sentido vivo da poesia espalhada pela cidade, o gosto pelo insólito e a embriaguez única da noite parisiense.

Começou como jornalista, pedindo fotografias principalmente a Kertész para ilustrar suas reportagens. A coragem para usar a câmera por conta própria veio apenas seis anos depois. "Tornei-me fotógrafo para captar a noite de Paris, a beleza das suas ruas e dos seus jardins, na chuva e na névoa", disse ele. Porém, se preferia a noite ao dia era porque "a noite sugere, não mostra", dizia. "Ela nos perturba e nos surpreende por sua singularidade (...); não existe uma noite absoluta", afirmava Brassai.

Certamente, ele não foi um gênio como Picasso com o qual manteve as famosas Conversations publicadas pela Gallimard e saindo no Brasil pela Cosac & Naify com o nome Conversas com Picasso (375 págs., R$ 35) e de quem se nota a forte influência. Mas a exposição é impressionante pela clareza e abundância de exemplos com que revela o seu universo. Ali fica claro que Brassai não é um "trombadinha (ou um trombadão) da realidade" como tantos fotógrafos que conhecemos. Ele constrói e encena a própria visão do mundo, influenciado pelos rumos da arte, da literatura e da poesia.

Reconstituição - Uma das idéias particularmente felizes do museu Beaubourg foi a de reconstituir na íntegra e apresentar nas suas realidades físicas as principais exposições históricas de Brassai. Assim, temos a mesma montagem e o mesmo espaço visitados pelo público da Paris à Noite, de 1932, das duas mostras exibidas no MoMA de Nova York, em 1951 e em 1955, e também a última grande exposição de suas fotos dos grafites coloridos na galeria Rencontres em Paris, em 1970.

A escolha de Brassai, por outro lado, está coerente com a nova filosofia de montagem do Museu Nacional de Arte Moderna do Centro Pompidou. Se afina com a própria coleção do museu, em que todas as disciplinas agora são confrontadas sem nenhuma separação ou hierarquia. Ao contrário do MoMA de Nova York, o Centro Pompidou rejeitou a opção de um espaço autônomo para a fotografia. Muitos trabalhos fotográficos de 1910 a 1950, por exemplo, dialogam com obras surrealistas. Mesmo o fotojornalismo de Doisneau nos anos 50 está associado à arte abstrata.

Naturalmente, do ponto de vista museológico, tudo isso é muito discutível.

Porém, o fato de o fotógrafo possuir uma obra interdisciplinar, na qual escultura, desenho, pintura e mesmo a escritura interagem com a sua fotografia cai como uma luva. No entanto, a maior pertinência dessa exposição está mesmo no estranho charme que o passado exerce hoje sobre nós.

Proféticas as palavras de Emile Henriot na crítica que ele publicou sobre o primeiro livro de fotos de Brassai : "Fotógrafos de 1933, é para o ano 2000 que vocês trabalham: lá, as pessoas vão encontrar muito talento em vocês!"






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