Imagens de Brassai aprisionam a noite
parisiense
A primeira retrospectiva em
território francês do artista húngaro, autor de livro sobre Picasso que
chega agora ao País, reúne cerca de 450 trabalhos e fica em cartaz, até
o dia 26, no Beaubourg
Estate
Brassa/Divulgação
'Auto-Retrato' feito oito
anos depois que se instalou em Paris | |
 | SHEILA LEIRNER Especial
PARIS - Escultor, desenhista, escritor e sobretudo fotógrafo, Gilberte
Brassai foi o autor de uma obra hoje inscrita na nossa lembrança como
testemunho de um mundo desaparecido: aquele dos apaches e das "belas da
noite" parisienses que povoam também o universo dos filmes de Prévert e de
Carné. O Centro Georges Pompidou, o Beaubourg, lhe consagra até o dia 26 a
primeira grande exposição retrospectiva jamais apresentada na França. São
450 trabalhos que cobrem quase a totalidade da carreira na qual Gyula
Halàsz, artista húngaro (de Brasso, na Transilvânia), sempre tentou
ultrapassar os limites da fotografia.
Só a vida de Brassai já daria uma obra literária em si. Ele - que
desde a mais tenra infância mergulhava graças ao pai na atmosfera das
letras e, ainda na juventude, freqüentava em Berlim os célebres círculos
de Moholy-Nagy a Kandinski, de Kokoschka a Varèse -, em sua chegada
definitiva a Paris, em 1924, ligou-se profundamente ao mais importante
grupo de poetas e escritores da época. Com Henri Michaux, Queneau, Fargue,
Desnos, Prévert, Reverdy, Brassai partilhou o sentido vivo da poesia
espalhada pela cidade, o gosto pelo insólito e a embriaguez única da noite
parisiense.
Começou como jornalista, pedindo fotografias principalmente a Kertész
para ilustrar suas reportagens. A coragem para usar a câmera por conta
própria veio apenas seis anos depois. "Tornei-me fotógrafo para captar a
noite de Paris, a beleza das suas ruas e dos seus jardins, na chuva e na
névoa", disse ele. Porém, se preferia a noite ao dia era porque "a noite
sugere, não mostra", dizia. "Ela nos perturba e nos surpreende por sua
singularidade (...); não existe uma noite absoluta", afirmava Brassai.
Certamente, ele não foi um gênio como Picasso com o qual manteve as
famosas Conversations publicadas pela Gallimard e saindo no Brasil pela
Cosac & Naify com o nome Conversas com Picasso (375 págs., R$ 35) e de
quem se nota a forte influência. Mas a exposição é impressionante pela
clareza e abundância de exemplos com que revela o seu universo. Ali fica
claro que Brassai não é um "trombadinha (ou um trombadão) da realidade"
como tantos fotógrafos que conhecemos. Ele constrói e encena a própria
visão do mundo, influenciado pelos rumos da arte, da literatura e da
poesia.
Reconstituição - Uma das idéias particularmente felizes do
museu Beaubourg foi a de reconstituir na íntegra e apresentar nas suas
realidades físicas as principais exposições históricas de Brassai. Assim,
temos a mesma montagem e o mesmo espaço visitados pelo público da Paris à
Noite, de 1932, das duas mostras exibidas no MoMA de Nova York, em 1951 e
em 1955, e também a última grande exposição de suas fotos dos grafites
coloridos na galeria Rencontres em Paris, em 1970.
A escolha de Brassai, por outro lado, está coerente com a nova
filosofia de montagem do Museu Nacional de Arte Moderna do Centro
Pompidou. Se afina com a própria coleção do museu, em que todas as
disciplinas agora são confrontadas sem nenhuma separação ou hierarquia. Ao
contrário do MoMA de Nova York, o Centro Pompidou rejeitou a opção de um
espaço autônomo para a fotografia. Muitos trabalhos fotográficos de 1910 a
1950, por exemplo, dialogam com obras surrealistas. Mesmo o fotojornalismo
de Doisneau nos anos 50 está associado à arte abstrata.
Naturalmente, do ponto de vista museológico, tudo isso é muito
discutível.
Porém, o fato de o fotógrafo possuir uma obra interdisciplinar, na
qual escultura, desenho, pintura e mesmo a escritura interagem com a sua
fotografia cai como uma luva. No entanto, a maior pertinência dessa
exposição está mesmo no estranho charme que o passado exerce hoje sobre
nós.
Proféticas as palavras de Emile Henriot na crítica que ele publicou
sobre o primeiro livro de fotos de Brassai : "Fotógrafos de 1933, é para o
ano 2000 que vocês trabalham: lá, as pessoas vão encontrar muito talento
em vocês!"
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